em cada xiquelene da vida
sim sou vendedor ambulante
sim sou vendedor informal
sim sou vendedor
vendo tudo bom preço patrão
até pontos de interrogação
em cada xiquelene da vida
a leveza das hipóteses
faço da vida o que a vida me faz
um desenho um jogo um arrepio do futuro
o perfil de uma aragem em tarde índica quente
quando lanço os dados no chão dos detalhes
sempre encontro em grande e quente plano
na figura unificada que ganham de repente
o pasmo que em todos meti para me convencer
de que posso sempre tirar as rugas às coisas
para lhes dar a juventude escanhoada das possibilidades
Assim enxerto em tudo a doçura dos atalhos
assim embuto em tudo a leveza da hipóteses
embondeiros
IAs folhas que vês deprenderem-se
são lágrimas vertidas pelas árvores
sempre que o vento, em sua inconstância,
lhes é diariamente infiel no imenso gineceu da vida
IIessa a razão por que os embondeiros
se converteram um dia à androginia
em cima folhas solidárias com as colegas
em baixo enormes troncos viris fiéis à savana
III
essa a razão também por que eles
na sua imensa e bendita complexidade
em lugar de chorarem folhas de dor
as guardam no interior como recordação
oferecendo ao calor viúvo da frescura
e aos humanos ressequidos de piedade
o préstimo seguro da água pura e redentora
e o carinho acredoce do malembe
esta impotência que lês
sempre tive ciúmes dos poetas
que escrevem poemas-palimpsestos
poemas que são várias escritas sobrepostas
poemas que são a escrita de várias escritas
almas agarradas umas às outras
pela cumplicidade dos machambas da vida
e dos tempos que no tempo culimam
poemas que ficam marcados por uma data
pela bússola da memória do local do acto
pela vela de um barco plurinavegado
porque eu piloto da impoesia
arqueólogo da estética que não tenho
apenas sou capaz de escrever poemas
que são como uma sanduíche banal:
a parte de cima é o que escrevi
a parte de baixo o que não soube escrever
e o recheio é esta impotência que lês
a pergunta a montante
Dizes-me que o destino dos rios
é o serem como parece que são
o de caminharem para a foz
infatigavelmente
impotentes desalentados
vingativos de revolta fracassada
quando galgam as margens
mas apenas eu sei que cada rio
(cada Zambeze das minhas veias)
tem unicamente uma aspiração na vida
a de conhecer o ventre que o deu à luz
por isso a vida é sempre uma coisa:
a pergunta a montante
que bóia inalterável na resposta a juzante
deito o futuro
deito o futuro no regaço da alma
para não me cruzar com o presente
Voltei

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